Obama na América Latina para salvar o neoliberalismo


Este passeio de Obama para promover sua fundação é enquadrado por uma tendência da elite global neoliberal que vem se aprofundando especialmente desde o novo milênio, com o "novo rico".

O ex presidente dos EUA, que salvou os financiadores de Wall Street da falência em 2008, e chegou ao governo com uma campanha financiada por grandes corporações e milionários que mais tarde se tornou parte de sua administração, visitou o Cone Sul. Em meio às dúvidas e incertezas na América Latina geradas por um discurso contraditório da administração de Trump quanto à forma como ele concebeu o relacionamento comercial livre de proteção, Barack Obama deu palestras no Brasil e na Argentina durante a primeira semana de outubro, promovendo sua nova base e exaltando os valores do neoliberalismo.

No Brasil, participou do quadro do Fórum Global Citizen em São Paulo, promovido pelo jornal Valor Econômico (grupo O Globo), Banco Santander Brasil e Programa Advantage. O tema do evento foi "Mudando o Mundo" Sim, você pode ", referindo-se ao lema da campanha de Obama “Yes we can”. O evento contou com a presença de várias empresas que promovem o "desenvolvimento do cidadão global". Nesta primeira visita ao Brasil após o golpe de Estado contra o governo de Dilma Roussef, o ex-presidente deixou claro o perigo que implica "o avanço dos populismos" e defendeu o "reforço da democracia para detê-los". 

Na Argentina, a conferência de Obama foi no quadro da Cúpula da Economia Verde realizada em Córdoba, organizada pela Fundação de Liderança Avançada com o governo provincial. O evento custou aproximadamente 1,4 milhões de dólares e o principal patrocinador foi o estado provincial - vale a pena notar que o ex presidente dos EUA cobra entre US$ 400.000 e US $450.000 por suas apresentações. Os três principais patrocinadores do setor privado foram a Fundação do Mediterrâneo, OCA e Boston Seguros.

Este passeio de Obama para promover sua fundação faz parte de uma tendência da elite global neoliberal que se aprofunda especialmente desde o novo milênio, com o "novo rico" do Vale do Silício (embora de modo algum sejam seus únicos membros). Está centrada em valores liberais, como assistência, liderança e empreendedorismo, anunciados pelo marketing da responsabilidade social corporativa como formas de "mudar o mundo". Na parceria público-privada promovida por seus fundamentos, o Estado deve estar ao serviço do setor privado, evitando qualquer tipo de retorno a políticas redistributivas que se referem ao estado de bem-estar social.

Os principais atores deste discurso e práxis são o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton (democrata) e o magnata Microsoft Bill Gates. Ambos têm fundações que têm pelo menos dois pilares: assistência para "desenvolvimento" nos países periféricos e impulso do empreendedorismo, "boas ideias" e liderança. A Fundação Obama parece mais focada nesta última tendência e, de fato, antes de viajar para a América Latina, Obama deu uma conferência patrocinada pela Fundação Bill e Melinda Gates (um dos maiores doadores em todo o mundo), sobre progresso, desenvolvimento global e como "mudar o mundo". A Fundação Bill e Melinda Gates financia a Fundação Obama, bem como a Grosvenor Capital Management (o dono é Michael Sacks, que também tem sua própria base: Highland Park).

Obama em São Paulo (Brasil)

Os laços de Obama com o neoliberalismo no Brasil foram estabelecidos através do grupo O Globo, o banco espanhol Santander, Advantage Program e Valor Econômico, que em 2016 foi absorvido pelo grupo O Globo, que operava como um dos eixos fundamental de Lawfare e o golpe para Dilma Rousseff em 2016.

Obama deu uma conferência no âmbito do "Global Citizens Forum" antes de mais de 300 empresários, enfatizando os do campo bancário. O representante de O Globo, Roberto Irineu Marinho e Sergio Ríal de Santander, disse que devemos "garantir milhões de pessoas no nosso tecido econômico" e, por isso, há empresas que desempenham um papel fundamental na "redução da desigualdade social no Brasil" - que é assumido como "resolvido" pelo setor privado. A O Globo tem uma base com o nome de seu fundador Roberto Marinho, criado desde 1977, que tem iniciativas que promovem o uso de energia renovável, educação de qualidade, incentiva a liderança juvenil e promove o valor do meio ambiente. A Fundação Obama e a Fundação Roberto Marinho têm uma agenda comum se os projetos de cada um forem revisados. 

As empresas privadas que financiam a Fundação Obama têm, por sua vez, projetos similares e investimentos em energias renováveis. Durante sua visita, Obama mencionou a energia renovável usada no Brasil e felicitou os esforços para usar esse tipo de energia. No Fórum dos Cidadãos Globais, Elizabeth Farina foi presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), um dos mais importantes empregadores do país. O Brasil, por sua vez, pertence à Plataforma Biofuturo lançada pela COP22. Esta plataforma, basicamente, envolve o investimento e a promoção do uso de biocombustíveis em diferentes países. A UNICA faz parte do lobby energético que promoveu com o governo de Temer o projeto "RenovaBio" junto com empresas americanas no Brasil, agrupados no Conselho Empresarial Brasil-EUA (BUSBC). Essas empresas representam a chave para o capital dos EUA e promovem o "livre comércio" e o uso de "energia limpa".

Atualmente, UNICA, BUSBC, Archers Daniels Midland Company (ADM), liderada por Patricia Woertz, presidente do Conselho de Exportação com Obama e outros conglomerados de energia dos Estados Unidos e Brasil, promovem o uso de etanol no Brasil e tem o apoio do Departamento de Comércio dos EUA. O lado "menos humano" e menos visível desses projetos são as conseqüências da produção de etanol devido à captação de terras e à erosão do solo que geram uma expulsão sistemática de camponeses e comunidades, em um processo que vem se aprofundando desde década dos anos 1970. 

Obama em Córdoba (Argentina)

No caso da cidade de Córdoba, a Liderança Avançada foi a agência que se encarregou de escolher os 300 participantes na palestra. Esta fundação está diretamente ligada ao governo dos EUA, especializada em treinamento de líderes, incluindo treinamento de negócios e troca de profissionais para realizar estadias em Washington DC. O conselho é para grandes corporações (como AXA, Telefónica, Microsoft, Iberdrola, CITI Bank, BBVA), mas também para governos (como observamos no caso do evento de Córdoba, financiado pelo governo provincial). Outro eixo são as "missões comerciais",

Os membros do Liderança Avançada são um exemplo de como a rede global opera através de trajetórias pessoais. O Presidente do Conselho de Assessores é Juan Verde, do Grupo de Consultores dos EUA, especializado em assessorar governos e empresas na expansão, estratégia e sustentabilidade do mercado. Green trabalhou em campanhas eleitorais como Barack Obama, Bill Clinton, Al Gore, Ted Kennedy, John Kerry e Hillary Clinton. Na primeira administração de Obama, Verde foi vice-secretário do Departamento de Comércio dos EUA para a Europa e a Ásia, com o objetivo de expandir a presença de empresas norte-americanas nessas regiões. Liderança avançada também recebe financiamento do BID, OEA, Fundación Mediterráneo e Boston Seguros.

Outra organização que financiou a reunião em Córdoba foi a Fundação do Mediterrâneo. O protagonismo desta fundação confirma a orientação neoliberal e a essência não só do evento, mas do meio ambiente ligado à assistência e ao empreendedorismo que caracterizam um setor da elite global. A Fundação do Mediterrâneo começou a operar durante a última ditadura militar na Argentina, seguindo as diretrizes dos "Chicago Boys" para promover e instalar (para o sangue e fogo) o neoliberalismo. Entre as personalidades mais destacadas, encontramos o economista Domingo Cavallo, o "guru" da convertibilidade e as privatizações na Argentina, na década de 1990, durante o governo de Carlos Menem. 

Atualmente, o ministro de finanças da província de Córdoba, vem da mesma fundação que descreve muitos think tanks neoliberais, que não só aconselham o setor público, mas também acabam fazendo parte dela por meio de trajetórias pessoais e circulação entre os setores público e privado.

Angustiado pela incerteza gerada pelo discurso de Trump (que de fato não se afastou do neoliberalismo, como mostra a turnê do vice-presidente Pence acompanhada por uma enorme delegação corporativa), defensores do neoliberalismo na Argentina e no Brasil recebeu com alívio Obama. É um sinal vivo de que a globalização neoliberal ainda está viva, lembrou durante sua visita que devemos "salvá-lo" contra o "populismo" (conceito que inclui o governo de direita de Trump e os processos de mudança na América Latina) que ameaçam a "democracia".
Fonte: Telesur - originalmente publicado em celag.

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