Qual a função do ensino de Geografia?

Estava refletindo sobre a questão do que é ser um professor de geografia pensando no professor do Ensino Básico. A carreira do professor por sí só, já é uma carreira bem difícil, bem complicada e por vários motivos, entre eles a falta de valorização do poder público que, muitas vezes, ignoram as demandas mais básicas desses trabalhadores da educação ignorando, inclusive, a necessidade urgente de valorização de suas carreiras.


Pensando nas atividades pedagógicas do professor de geografia eu colocaria um pouco mais de dificuldade devido ao grande volume de conteúdos que esse professor tem que “dominar” para poder dar conta das questões do cotidiano de sala de aula, pensando o Ensino Básico, ou seja, o Ensino fundamental do 6° ao 9° anos ou dos 3 ou 4 anos do Ensino Médio. Para o professor de geografia, e isso não descarta as outras áreas do conhecimento de passar pelo mesmo problema, é complicado porque esse profissional se depara com um volume muito grande de conteúdos que, em tese, deveria dominar para poder dialogar com seus alunos. 


Uma mudança de perspectiva se torna urgente, é preciso repensar o modelo de aulas baseadas nos conteúdos e partir para ações didático-pedagógicas tendo como princípio norteador a aprendizagem escolar com a ciência, utilizando-se da ciência, no caso, ciência geográfica para aprender, ou melhor, compreender fenômenos espaciais e, desse modo, apreender os elementos necessários para no espaço poder intervir. Dentro de toda uma dificuldade de apreensão de um quantitativo quase que, imensurável de conteúdos ditos da Geografia, a superação dessa dificuldade, ou o caminho que minimamente nos permitiria compreender um pouco mais e melhor essas ações em sala de aula, a partir dos conhecimentos geográficos é entender que a geografia é uma ciência de síntese que busca explicar a realidade posta e que para isso é preciso que o professor trabalhe com um enredo para com seus alunos. É preciso compreender a geografia a partir de um enredo que vai sendo construído junto com os alunos; um enredo que o professor vai construindo junto com seus alunos. Aquilo que podemos chamar de construção da geografia escolar, uma geografia que não está pronta, ela vai sendo construída à medida que o trabalho pedagógico, aquele exercido inicialmente em sala de aula e que vai se reproduzindo na vida cotidiana dos alunos, dentro e fora do ambiente escolar, vai sendo realizado entre o professor e os seus alunos. 


Certa vez o professor Milton Santos numa entrevista dada ao programa Roda Vida da TV Cultura, ao ser questionado sobre a necessidade da geografia no ensino, frisou “eu creio que o ensino da geografia tem como função central explicar o país e produzir cidadãos a partir desse conhecimento”. Essa é uma afirmação que nos orienta a uma prática escolar onde a geografia tem um fim, que não se encerra nele mesmo e que, para tanto, é preciso produzir os enredos geográficos de descoberta e compreensão dos movimentos antrópicos e naturais sob o espaço.


Além de trabalhar a perspectiva de uma construção de um enredo nos conteúdos geográficos utilizando os seus conceitos para compreensão dessa realidade é importante que esses conceitos e essas narrativas busquem a formação das chamadas conexões geográficas, palavra essa que ouvi pela primeira vez da professora maria adélia de souza que chamou muito minha atenção para essa necessidade de estabelecer as conexões geográficas para a compreensão da realidade.


Penso que se o professor de geografia se orientar por esse caminho, ele vai continuar tendo muito trabalho em virtude daquilo que a geografia se impõe como ciência. Contudo, a partir de uma concepção conceitual e não conteudista, o professor de geografia consolidaria um norte para poder se orientar, uma linha estabelecida onde ele pudesse desenvolver seu trabalho pedagógico e com a geografia auxiliar cidadãos em formação nessa compreensão do mundo para nele poder intervir.


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