Recentemente, me deparei com uma placa em um supermercado que me fez travar o carrinho: "Alimentação Saudável / Restritiva". À primeira vista, parece apenas uma facilidade para o consumidor. Mas, se pararmos para analisar a semântica da coisa, a conclusão é perturbadora.
A Armadilha dos Adjetivos
Essa lógica não é exclusiva das prateleiras de granola e chia. Ela está em todo lugar, especialmente nos postos de combustíveis. Você chega para abastecer e tem a "Comum" e a "Premium" (ou Aditivada, V-Power, Supra, etc.).
Quando você questiona o frentista, o diálogo é quase sempre um roteiro de comédia do absurdo:
- — "Por que a Premium é mais cara?"
- — "Porque ela é melhor, protege o motor."
- — "Então a comum é ruim e estraga o motor?"
- — "Não, a comum é boa."
Ora, se a comum é boa, por que eu pagaria 20% a mais por um adjetivo? Se o produto "padrão" já cumpre sua função com excelência, o adjetivo vira apenas um pedágio psicológico. O que o mercado faz é nos vender a ausência do medo. Você não paga pela gasolina Premium; você paga para não sentir que está sendo "negligente" com seu carro.
Gourmetização ou Saúde Pública?
No supermercado, o buraco é mais embaixo. Quando o varejo separa o "saudável", ele cria uma elite de consumo.
- A Elitização do Essencial: Comer bem vira um "extra", um luxo sinalizado por embalagens foscas e preços elevados.
- A Isenção de Culpa: Ao rotular um corredor específico, o mercado valida o ultraprocessado nos outros corredores. É como se dissessem: "O veneno está liberado lá no fundo, desde que a gente mantenha o antídoto aqui na frente para quem puder pagar."
Estamos vivendo errado?
Pode um supermercado vender produtos que não são saudáveis? Legalmente, sim. Mas moralmente, a existência de um "corredor saudável" é a prova de que o nosso sistema alimentar está de cabeça para baixo.
O natural, o orgânico e o nutritivo deveriam ser a norma, não a exceção gourmetizada no Corredor 23. Se a comida precisa de um aviso de que "faz bem", é porque desaprendemos o básico: comida de verdade não precisa de marketing, ela precisa apenas ser comida.
A próxima vez que você vir uma placa dessas, faça o exercício: o adjetivo serve para elevar o produto ou para esconder a mediocridade do que é vendido como "comum"?
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Você costuma cair na tentação do produto "Premium" ou prefere questionar o valor real do que coloca no carrinho? Comente abaixo a sua experiência mais absurda com a gourmetização do básico.
Tags: reflexão, consumo consciente, alimentação saudável, marketing, comportamento, sociedade, saúde pública, crítica social, economia, cotidiano
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